Damaris Vitória Kremer da Rosa, de 26 anos, viveu um dos capítulos mais tristes da Justiça brasileira. Após seis anos presa injustamente, ela foi absolvida em agosto de 2025. Porém, apenas 74 dias depois, em 26 de outubro, morreu em Balneário Arroio do Silva (SC), vítima de câncer de colo de útero doença que se agravou dentro do presídio, sem o tratamento adequado.
Natural de Salto do Jacuí (RS), Damaris tinha 20 anos quando foi acusada de envolvimento na morte de Daniel Gomes Soveral, em 30 de novembro de 2018. A investigação sustentava que ela teria atraído o homem para uma emboscada. Mas, conforme a defesa, a história era completamente diferente.
Damaris havia contado ao namorado que teria sido estuprada pela vítima, e foi ele quem decidiu se vingar sem que ela soubesse. Daniel foi morto e o carro incendiado. Mesmo sem provas diretas, Damaris foi incluída na denúncia e presa preventivamente em agosto de 2019.
Durante quase seis anos de prisão preventiva, Damaris passou por quatro penitenciárias no Rio Grande do Sul: Sobradinho, Lajeado, Santa Maria e Rio Pardo. Nesse período, começou a apresentar dores abdominais intensas e sangramentos constantes. A advogada Rebeca Canabarro, responsável pela defesa, ingressou com diversos pedidos de liberdade e apresentou atestados e laudos médicos que indicavam o avanço da doença. Mesmo assim, o Ministério Público alegou que as provas “não indicavam doença grave”, e o juiz manteve a prisão. Enquanto os autos se acumulavam, o câncer avançava rapidamente.
Somente em março de 2025, exames confirmaram o diagnóstico: neoplasia maligna do colo do útero em estágio avançado. O caso foi novamente levado à Justiça, que concedeu prisão domiciliar humanitária. No dia 18 de março, Damaris deixou o presídio de Rio Pardo sob ordem judicial, com tornozeleira eletrônica e o corpo debilitado. Em abril, o juiz autorizou que ela fosse morar com a mãe, em Balneário Arroio do Silva (SC), e iniciasse o tratamento no Hospital São José, em Criciúma.
Mesmo em tratamento, a tornozeleira eletrônica nunca foi retirada, nem durante as sessões de quimioterapia e radioterapia. “Ela chegou a perder peso e tinha feridas na perna, mas a Justiça negou o pedido de retirada”, relatou a defesa.
O júri popular ocorreu entre 13 e 15 de agosto de 2025, em Salto do Jacuí, cidade onde o crime aconteceu. A promotoria insistiu na tese de coautoria, mas a defesa desmontou a acusação ao expor contradições no inquérito e ausência de provas. Por unanimidade, os jurados decidiram absolver Damaris por negativa de autoria. A sentença apenas reconheceu o que ela afirmava desde o início: era inocente. “Agora posso respirar”, disse emocionada a mãe, Claudete, ao deixar o tribunal.
A liberdade, no entanto, veio tarde demais. O câncer já estava em estágio terminal, e o tratamento paliativo não foi suficiente. No dia 26 de outubro de 2025, Damaris faleceu em casa, ao lado da mãe e dos irmãos. O velório, realizado no dia seguinte, comoveu moradores de Arroio do Silva e de toda a região Sul catarinense, que se uniram em manifestações de luto e indignação.
O processo nº 5003423-13.2019.8.21.0047 evidencia o abismo entre a teoria e a prática da Justiça brasileira. Foram 2.240 dias de prisão preventiva, sem sentença definitiva. Nenhum órgão público assumiu responsabilidade pelo erro que custou a vida de Damaris. Para a defesa, o caso representa “um retrato cruel da morosidade da Justiça e do descaso com a vida das pessoas pobres e esquecidas”.








































